Studio Geremia

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Studio Geremia – Caxias do Sul
Giacomo Geremia

Antônio e Regina Geremia são naturais da comuna italiana San Martino di Lupari, Provínvia de Pádua. Na condição de camponeses, a colheita mal dava para o sustento da família. Seduzidos pelas promessas dos agentes de imigração, por que não tentar em outras terras ganhar o pão que a pátria lhes negava? O casal Geremia, acompanhado dos filhos Pio e Giacomo, chegou ao Rio Grande do Sul em 1892. Assentados em Antônio Prado, a sexta e última colônia italiana criada pelo império em solo riograndense, receberam um lote de terras nas ribanceiras do Rio das Antas.

Nascido em 15 de outubro de 1880, Giacomo Geremia tinha doze anos quando chegou ao Brasil. Auxiliou os pais na derrubada da mata, no plantio das primeiras sementes e levava água para os homens que trabalhavam na abertura das estradas. Esta, porém, não era a América descrita nos cartazes afixados no Porto de Gênova. Antes de completar catorze anos, deixou a casa dos pais e segiu a pé até São Sebastião do Cai. Uma vez chegado ao Porto do Guimarães, embarcou no “Vapor Caxias” de Ludovico Sartori. Ao ver o rapaz alimentar-se de laranjas, o “velho Sartori” teria dito: “Ofereçam um prato de comida à esse menino!” Giacomo desembarcou em Porto Alegre, onde trabalhou como auxiliar de marceneiro e condutor de pipas de água potável para o abastecimento a domícilio. Aos dezoito anos, ao apresentar sintomas de bronquite asmática, o médico lhe aconselhou o ar da serra como tratamento. Acatando as prescrições médicas, deixou a capital para estabelecer-se em algum povoado dos Campos de Cima da Serra.

Vivendo na cidade de Vacaria, Giacomo conheceu um velho italiano que andava pelos povoados “tirando retratos de pessoas”. Seduzido pela enigmática aparelhagem e pela magia que envolve o ato de fotografar, demonstrou interesse em desvendar o mistério. O velho fotógrafo, cansado de viajar no lombo de mulas com o frágil e pesado equipamento de trabalho, transmitiu o ofício ao jovem aprendiz. Giacomo iniciou na profissão como fotógrafo intinerante, percorrendo fazendas e vilas dos Campos de Cima da Serra no Rio Grande do Sul e de Lages, em Santa Catarina. A galope e a pé, galgou as escarpas da Serra Geral, sentiu a solidão que emana da imensidão dos campos, acercou-se das comitivas tropeiras ao anoitecer, atravessou a temida viração (neblina) do alto da serra para, então, chegar ao seu destino e ser compensado pela hospitalidade campeira.

Ansiosamente esperado, a sua chegada trazia a aura do novo para ao cotidiano familiar. Este halo está presente nos retratos agrupados em álbuns ou misturados em meio às gavetas dos guardados. Capturadas de forma descontinua, essas fotografias se transformaram em elos das memórias familiares e guardam o poder visual de revisitar o passado. Em suas andanças pelos Campos de Cima Serra, Giacomo fotografou cenas da vida estancieira, festas campestres e, principalmente, fez retratos individuais e de famílias.

Por volta de 1905, Giacomo retornou para Antônio Prado, onde se estabeleceu com pequeno estúdio; as incursões fotográficas continuaram pelas colônias italianas. Em uma de suas viagens a Vila Santa Teresa de Caxias, foi instigado pelos amigos Mário D’ Arrigo e Henrique Fracasso a residir nesta localidade. O fotógrafo aceitou o convite desde que os amigos construíssem suas casas nas vizinhanças da sua.

Já casado com Ângela Ida Zacchera, Giacomo mudou-se para Caxias em 1910, ano da chegada do trem e da elevação da próspera vila à categoria de cidade. A população beirava os 4.000 habitantes e as estatísticas indicavam a presença de 235 pequenas indústrias e 186 casas comerciais. Para Giacomo, a jovem cidade revelava-se promissora, mesmo tendo que disputar a clientela com outros três fotógrafos: Giovanni Battista Serafini, Umberto C. Zanella e Domingos Mancuso.

Enquanto aguardava a construção do prédio onde instalaria o estúdio, Giacomo montou um ateliê provisório na Avenida Júlio de Castilhos, entre as ruas Dr. Montaury e Visconde de Pelotas, ao lado do Salão Goyer. Tendo por vizinhos, à esquerda, a Pharmácia de Mário D’ Arrigo e, à direita, o consultório do Dr. Henrique Fracasso, em 1913 Giacomo mudou-se para Avenida Júlio de Castilhos n°.1872. O Stúdio Geremia permaneceu nesse endereço até o encerramento de suas atividades, em 1997. Ao longo desses anos mudou várias vezes sua razão social: “Atelìer Geremia”, “Photo G. Geremia”, “Geremia” e “Studio Geremia”.
Giacomo trouxe para Caxias do Sul os processos mais modernos de fazer fotografia, como traduz anúncio publicado no Jornal Cidade de Caxias, de 09 de dezembro 1911.

O Studio Geremia se tonou o espaço por excelência dos retratos. Nos formamatos cabinet portrait e carte-de-viste, Giacomo acompanhava as tendências do seu tempo e se acercava das inovações. Para a composição do cenário, fazia uso de fundos neutros ou de paisagens exóticas. Fazia parte da encenação o braço recostado sobre o pedestal, a cabeça reclinada sobre a mão e o olhar fixo para o que está logo atrás da câmera; estatuetas, guardanapos rendados, genuflexório, móveis, lareira, brinquedos, poses e gestos amoldados à cada cena criada. Além do retoque sobre os negativos, o atelier usava a técnica de fotopintura (crayon, óleo e pastel), processo executado pelos funcionários Alexandre Kenigi. Heitor Celi e mais tarde por Ary Cavalcanti e Léo Geremia. Os efeitos de iluminação ficava por conta da clarabóia existente no teto da sala de retratos.

O Studio Geremia proclamava-se o detentor do “segredo da verdadeira arte”, materializado na “pose artística” e na “graduação da luz”, como demonstra o anúncio publicado pelo jornal Città di Caxias, de 11 de maio de 1916:

Com o andar dos anos, Giacomo Geremia tornou-se referência na arte de fazer retratos na cidade e região. Era procurado para eternizar os momentos mais significativos da vida: o batizado, o primeiro aniversário, os quinze anos, a primeira comunhão, a formatura, o casamento, as bodas. Fazer o retrato para a posteridade "no Geremia” tornou-se um hábito perpetuado através das gerações. Giacomo também era solicitado para as fotografias post mortem, capturadas com a intenção de reter na memória a imagem dos que partiam. Para deixar o finado com a expressão de vivo, recorria à recursos que envolviam a criação de cenários, o uso da maquiagem o ajuste da pose na cena composta e o posterior retoque.

Fora do ateliê, Giacomo era chamado para fotografar inaugurações de obras públicas, solenidades sociais e políticas, momentos festivos da vida da cidade, como as Festas da Uva, os cerimoniais religiosos e cívicos. São recorrentes as imagens da cidade, especialmente aquelas que testemunham as intervenções no espaço urbano no período 1910-1960. Também era solicitado para fotografar o interior de cantinas, tecelagens, metalúrgicas. O exemplo mais representativo é o da Metalúrgica Abramo Eberle S. A., durante quatro décadas (1910-1950) o Studio Geremia foi contratado para documentar a evolução dessa empresa.

Atento às inovações, assinava revistas especializadas em fotografia, importava os equipamentos da Alemanha, passou pela época dos negativos de vidro, das chapas de transparência, testemunhou a modernidade das novas câmeras que permitiam congelar o instante em movimento. Ainda nos primeiros anos de sua atividade em Caxias do Sul, foi premiado com medalhas de ouro em várias exposições estaduais, menciona-se a Exposição do Centenário de Santa Maria, em 1914, a Exposição Regional Agrícola-Industrial de Caxias, em 1916. Ao longo de sua história, o Studio Geremia contratou vários auxiliares: retocadores, laboratoristas, balconistas, assistentes. Consolidando-se como uma escola para a formação de novos profissionais, alguns funcionários, ao deixar o estúdio, abriram seus próprios estabelecimentos, como Bartholomeu Beux, Ary Cavalcanti e Mauro de Blanco.
Giacomo e sua esposa Ida tiveram sete filhos: Ulysses, Léo, Duílio, Osmar, Hélio, Remy e a primogênita Elisabeta, falecida no primeiro ano de vida. Léo trabalhou no estúdio com retoque e fotopintura; Ulysses deu continuidade ao trabalho do pai.

Giácomo Geremia faleceu em 20 de setembro de 1966 em decorrência de complicação respiratória. Prosseguindo com Ulysses, o Studio Geremia fotografou Caxias do Sul 87 anos do século XX.

Ulysses Geremia
Filho de Giacomo e Ângela Ida Geremia, Ulysses nasceu em Caxias do Sul em 11 de novembro de 1911. Quando criança gostava de correr de patins pelas calçadas que circundavam a Praça Dante Alighieri e de sair com os amigos para pescar caranguejos no Arroio Tega. Na intimidade familiar, ver o pai compondo retratos na sala de poses e ouvi-lo transitar no quarto escuro instigava sua curiosidade de menino, desejando também ser um fotógrafo. Ulysses cresceu envolto pela claridade difusa da sala de pose e pelo mistério do quarto escuro. Cursou o ensino primário no Colégio Nossa Senhora do Carmo, continuando seus estudos em Porto Alegre, onde estudou no Colégio Dante Alighieri, instituição subsidiada pelo governo italiano. Por influência do pai, matriculou-se no curso comercial, que abrangia também o estudo do idioma e da cultura italiana.

Ulysses retornou para Caxias do Sul com o diploma de “guarda-livros”, mas desejava ser fotógrafo. O pai foi imperativo: primeiramente o jovem deveria trabalhar em outra empresa para aprender disciplina, gostando ou não da função que lhe fosse dada. Acatando as recomendações, Ulysses trabalhou na firma De Carli Fadanelli & Cia. Ltda. e, posteriormente, no Atacado de Júlio Ungaretti. Perseverante na profissão que escolhera, insistia no aprendizado da fotografia. Sem pressa, Giacomo atendeu os apelos do filho, permitindo que ele o auxiliasse a recortar retratos e no arranjo dos cenários. Em 1933 Ulysses era funcionário do Studio Geremia. Profissionalmente, iniciou fazendo fotografias no formato 3X4, logo passando para os retratos artísticos. Sobre o seu aprendizado, dizia: “O velho me ensinou a técnica, por isso a árvore subiu reta. Ele procurou me dar um alicerce bom, porque ter defeitos de início faz com que sejamos profissionais medíocres.” (Ulysses Geremia, 23 de agosto de 1982)

Para Ulysses, “direcionar a câmara fotográfica é como apontar uma arma, a pessoa se retrai, perdendo a espontaneidade, especialmente as mulheres.” (Ulysses Geremia, 23 de agosto de 1982) Para evitar tal constrangimento, antes de compor o retrato, ele conversava com o cliente para deixá-lo à vontade e confiante. Ao mesmo tempo, observava feições peculiares: o gestual, a incidência de luz, o melhor ângulo, o cenário mais apropriado ao seu estilo. “Ninguém quer sair como é, até o homem procura um ar diferente. Sempre tem uma um ângulo melhor, então é preciso estudar o tipo de rosto, a fisionomia, o vestuário e encontrar a janela ideal”. (Ulysses Geremia, 23 de agosto de 1982)

Ulysses Geremia acompanhou a evolução dos processos fotográficos e as decorrentes mudanças dos padrões estéticos. Na sua primeira fase de retratista utilizou negativos de vidro e de transparência. Inspirado pelos padrões pictorialistas, registrou poses individuais e coletivas, em pé ou sentadas, frontais ou de perfil amoldadas a encenações marcadas por trajes finos e acessórios sugestivos de distinção e recato. Os efeitos de tais representações, geralmente, ocultavam o personagem real, que poderia ser um operário, um camponês, pessoas modestas que desejavam aparentar a imagem desejada para si, para os demais e para ser lembrada.
No pós guerra, o Studio Geremia, através de Giacomo e Ulysses, assimilou as sucessivas gerações de máquinas fotográficas e de seus acessórios. Os novos equipamentos davam mais agilidade ao fotógrafo, além de permitir a criação de novos enquadramentos e poses. Os cenários foram substituídos por fundos neutros, os aparatos cênicos desaparecem para dar ênfase ao retratado. A exemplo do que acontecia nos grandes centro urbanos, o Studio Geremia buscava incorporar as novas tendências, afastando-se da tradição pictorialista.

Os avanços tecnológicos, a nova conjuntura internacional, com mundo dividido em dois blocos políticos - EUA e URSS – trouxe mudanças comportamentais e novos valores estéticos. Para a área de influência dos Estados Unidos, era a difusão do “American way of life” (estilo americano de vida), uma combinação de liberdade individual, democracia, consumo excessivo, entreterimento, ostentação econômica. O cinema hollywoodiano entrou no Studio Geremia definindo poses e padrões estéticos. A maquiagem, o vestuário, o penteado, o gestual tornaram-se suportes para simular Rita Hayworth, Grace Kelly, Audrey Hepburn, James Dean, Humphrey Bogart. “Quando uma menina chegava dizendo “Geremia, está fotografia é para o meu namorado”, eu já peguntava: qual a artista de cinema que tu queres parecer? (Ulysses Geremia, 23 de agosto de 1982). As poses mesclavam estilos e posturas: ingenuidade e singeleza, elegância e distinção, jovialidade e informalidade, sensualidade e ousadia; poses e posturas rompendo antigos costumes.

A Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada por Getúlio Vargas em 1943, trouxe outras mudanças. A obrigatoriedade da carteira profissional com foto levou para dentro do estúdio a classe trabalhadora. Nos anos que se seguiram, o Studio Geremia fotografou milhares de pessoas no formato 3X4, em geral elas chegavam bem penteadas e vestindo a melhor roupa; para muitos foi primeiro e único retrato feito no Geremia.

Além dos tradicionais retratos, o olhar fotografico de Ulysses registrou as mudanças da paisagem urbana, captou o cotidiano e os momentos solenes da vida da cidade: comemorações cívicas, manifestações populares, celebrações religiosas, festas comunitárias, visitas ilustres, como a de Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e a do presidente da Itália, Giovani Gronchi. Igualmente, o fotojornalismo fez parte da sua trajetória profissional, cobrindo eventos para os jornais locais e para o Correio do Povo, de Porto Alegre.

O velho sobrado da Avenida Julio de Castilhos, nº 1.872, mais especificamente o andar térreo, abrigou por mais de meio século a loja de material fotográfico do Studio Geremia. Certamente a mais equipada da região, era a loja preferida dos fotógrafos que, além de encontrar os itens que desejavam, era sempre uma oportunidade para conversar com o “velho Giacomo” e com o filho Ulyssses sobre fotografia. A loja também agregava uma pequena galeria com a exposição de fografias que marcaram a trajetória do estúdio.
O maior acesso aos equipamentos fotográficos e a facilidade para manusear as novas câmeras pertimitiu a qualquer leigo registrar os momentos marcantes e o cotidiano familiar. Tendo a mão a máquina fotográfica e sabendo como utilizá-la, as famílias começam a compor a sua crônica visual. O Studio Geremia passou por essas mudanças. Com a morte de Giacomo em 1966, Ulysses deu continuidade ao estúdio, absorvendo os efeitos da disseminação das máquinas fotográficas no cotidiano das pessoas. Procurado com menos frequência, era solicitado para os retratos clássicos e para a produção de imagens que demandassem qualidade técnica de um profissional, como fotos publicitárias. A sala de poses deixou de ser atrativa, optando-se por espaços ao gosto do retratado, até mesmo a sua residência. Em decorrência, Ulysses abriu o estudio aos fotógrafos amadores, executando o trabalho de laboratório: revelação de filmes, ampliação e impressão de fotografias. Na década de 1970, investiu na ampliação da loja, especializando-se na venda de equipamentos profissionais e semi-profissionais. Continuou como o estúdios dos retratos de família e aqueles que deveriam ser eternizados.

Em 1997, enquanto jogava tênis, Ulysses foi surpreendido por um AVC. Impossibilitado de trabalhar, desativou o estúdio no mesmo ano. Do casamento com Zélia Bazi, nasceram os filhos Rogério e Claúdia. Faleceu em 03 de outubro de 2001 aos 90 anos, dos quais mais de 60 dedicados à fotografia.

Giacomo e Ulysses preservaram as várias gerações de negativos e de fotografias produzidas pelo estúdio. Parte desse acevo foi adquirida pela Administração Municipal de Caxias do Sul em 2002 e parte Ulysses doou em vida ao Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami. Abrangendo a produção realizada no período compreendido entre 1911-1997, estas fontes documentais testemunham a evolução dos processos fotográficos e revelam padrões estéticos de diferentes épocas. A sua peculiaridade e importância se manifesta no modo como a comunidade se deixou fotografar no contexto público e privado.

Locais

status legal

funções, ocupações e atividades

Mandatos/Fontes de autoridade

Estruturas internas/genealogia

contexto geral

Área de relacionamento

Área de controle

Identificador do registro de autoridade

Identificador da instituição

Regras ou convenções utilizadas

Status

Nível de detalhamento

Datas de criação, revisão e eliminação

Idioma(s)

Sistema(s) de escrita(s)

Fontes

Notas de manutenção